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A Pessoa como Centro

 

Revista de Estudos Rogerianos

 

Nº 4

Outono – Novembro  1999

 

 

 

Editorial Odete Nunes

 

Apresentação dos Autores

 

A Propósito de Carlos Caldeira e Carl Rogers João Hipólito 

 

Jung, Rogers e Caldeira:

Heterodoxias ou a Importância de se Chamar Carlos Pedro Caldeira e Celeste Duque

 

Uma Viagem com Carlos Caldeira Luciano Marmelada

 

Lembrando Carlos Caldeira Leopoldo Campos Morais

 

Desafios do Século XXI Para a Abordagem Centrada na Pessoa Alberto Segrera

 

Um Caminho Para a Totalidade:

Terapia pela Arte Centrada na Pessoa Natalie Rogers

 

Personalização e Dinâmica Relacional Pierre Tap e Nathalie Oubrayrie-Roussel

 

Freud, Rogers... e Eu Isabel Leal

 

Notas de Leitura

 

Notícias  

 

Congressos

 EDITORIAL

Odete Nunes
 

 Estamos a chegar ao final deste século e grandes têm sido as mudanças que nele ocorreram, sendo sentidas com orgulho por uns, chamando-lhe progresso ou evolução, e por outros sentidas como fonte de aprisionamento, designando-as de alienantes ou atribuindo-lhe a responsabilidade de perda de qualidade de vida.

Independentemente da apreciação qualitativa que se lhe queira atribuir, elas são o resultado do processo de complexificação do ser humano e da diversidade do pensamento e da forma de experienciar o mundo dos diferentes indivíduos.

No âmbito da Psicologia e da Psicoterapia, este foi também, um século recheado de personagens interessadas em estudar e compreender o comportamento, os processos psicológicos e sócio-afectivos inerentes ao Homem, bem como a sua capacidade de entrar em relação.

Na Revista  Nº3  “A Pessoa como Centro”  publicámos uma biografia detalhada de uma destas personagens, Carl Rogers que, quer pelo seu modelo inovador de psicoterapia quer pela sua filiação às ideias da corrente humanista da psicologia, se tornou conhecido mundialmente.

Neste Nº4 sublinhamos o nome de Carlos Caldeira que, em Portugal, teve o mérito de introduzir as ideias de Rogers, de desenvolver um modelo original de compreensão do Homem, ao qual chamou modelo sócio-antropológico e também pelo seu trabalho pioneiro de intervenção socio-comunitário.

João Hipólito, seu continuador no trabalho de formação em psicoterapia e socioterapia, de aprofundamento teórico, de investigação e de difusão das ideias de C. Rogers, apresenta-nos de uma forma clara a sua perspectiva sobre o que separa e une estes dois autores: Rogers e Caldeira.

Também Pedro Caldeira, Luciano Marmelada e Leopoldo Campos Morais nos falam de Caldeira quer evidenciando os afectos que com ele partilharam quer salientando o impacto das suas ideias ou ainda referindo o valioso contributo no âmbito científico.

A inclusão deste conjunto de rúbricas sobre Caldeira tem como objectivo contribuir para que a memória de um homem que se interessou pela promoção da plenitude da vida dos outros homens, nomeadamente os que sofrem, não seja apagada e contribuir, também, para que as suas ideias no limiar do século XXI possam continuar a ser fonte de reflexão, exactamente, pela actualidade que elas continuam a manter.

Apresentamos ainda neste número uma perspectiva sobre o desafio da Abordagem Centrada na Pessoa para o século XXI (A. Segrera), uma especificidade de intervenção terapêutica através da arte (Natalie Rogers) e uma reflexão teórica bastante aprofundada sobre o processo de desenvolvimento da pessoa e da sua dinâmica relacional que tem como base as ideias de Rogers (Pierre Tap e Nathalie Oubrayrie-Roussel).

Por  último incluímos um artigo  intitulado “Freud, Rogers e Eu” de Isabel Leal,  autora que convidámos e que gentilmente aceitou colaborar connosco. Neste artigo são apresentadas algumas considerações sobre as diferenças significativas de Freud e de Rogers, segundo a perspectiva da autora. Isabel Leal  inclui-se no número das pessoas que contactaram com o pensamento de  Caldeira   e, embora tenha enveredado por uma formação e prática de   grupanalista, sempre manteve uma atitude de abertura e de respeito em relativamente ao modelo da Terapia Centrada no Cliente.

Em nome da equipa agradeço a todos os autores que nos enviaram artigos para publicação e agradeço também a Natalie Rogers as imagens criativas e a autorização que nos concedeu para ilustrar este número.

Finalmente agradeço a todos os membros da equipa a sua colaboração, nomeadamente a Paulo Lima, director-adjunto, deste número.  

 

 

Apresentação dos autores 

 

João Hipólito

 É Doutorado em Medicina. Psiquiatra e Psicoterapeuta Centrado no Cliente. Presidente da Associação Portuguesa de Psicoterapia Centrada na Pessoa e de Counselling. É Professor Catedrático Convidado da Universidade Independente (Lisboa) e Director do Curso de Psicologia. Professor Convidado do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (Lisboa) onde é Director do Curso de Pós-Graduação em Relação de Ajuda. Psicoterapeuta formador.

  

Luciano Marmelada

Psiquiatra antropoanalista. Assistente Graduado de Psiquiatria no Centro de Saúde de Torres Vedras. Membro do Seminário de Orientação da Sociedade de Antropoanálise. Membro do Concelho Técnico da Associação Comunitária de Saúde Mental.

  

Pedro Caldeira

Professor Auxiliar Convidado da Unidade de Ciências Exactas e Humanas da Universidade do Algarve. Licenciado em Psicologia Educacional pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Mestre em Estatística e Gestão de Informação pela Universidade Nova de Lisboa e Doutor em Gestão de Informação pela Universidade Nova de Lisboa.

  

Celeste Duque

Licenciada em Psicologia Clínica pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Terminou parte escolar do Mestrado em Psicopatologia e Psicologia Clínica pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada.

 

Leopoldo de Campos Morais

Psiquiatra. Iniciou a sua actividade no Hospital Júlio de Matos, tendo-se reformado como Chefe de Serviço Hospitalar da carreira psiquiátrica, na Direcção Geral de Saúde. Continua exercendo a sua actividade profissional em regime de profissão liberal. Sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria Social (1985),  associação em actividade na actualidade.

  

Alberto Segrera

Mexicano, nascido em Cuba. Licenciado em Psicologia e candidato ao Mestrado em Ciências Familiares e Sexológicas pela Université Catholique de Louvain (Bélgica); especialista em Psicoterapia Centrada no Cliente e candidato ao Mestrado em Educação pela Universidade Iberoamericana (Mexico). Académico emérito na Universidade Iberoamericana. Educador e orientador. Fundador e director dos Arquivos Internacionais da Abordagem Centrada na Pessoa

  

Natalie Rogers

Doutora em Psicologia Psicoterapêuta, fundadora e co-directora do Instituto de Terapia Expressiva Centrada na Pessoa em Santa Rosa, Califórnia. Conhecida internacionalmente pelo seu trabalho em terapia pela arte. Trabalhou como psicoterapeuta em trabalho comunitário e num hospital psiquiátrico. Autora de vários livros.

  

Pierre Tap

Doutor em Psicologia, Director do UFR de Psicologia (Toulouse), Director do Laboratório de Psicologia do Desenvolvimento e da Saúde, Professor Convidado da Universidade de Bruxelas, do Instituto Piaget de Lisboa,  do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (Lisboa), do Instituto Superior Bissaya Barreto (Coimbra), e da Universidade Independente (Lisboa).

  

Nathalie Oubrayrie-Roussel

Doutora em Psicologia, Mestre de Conferências em Psicologia da Universidade de Toulouse Le Mirail, membro do Laboratório de Investigação de Psicologia Social do Desenvolvimento e da Saúde da Universidade de Toulouse Le Mirail.

  

Isabel Leal

Doutora em Psicologia pela Universidade de Louvain. Directora da Escola de Mestrados e Pós-Graduações do Instituto Superior de Psicologia Aplicada; Directora do Departamento de Psicologia Clínica da Maternidade Alfredo da Costa e Presidente da Sociedade de Psicologia da Saúde

 

 

 A Propósito De Carlos Caldeira

e Carl Rogers

 

  João Hipólito

 

Palavras-Chaves: Antropoanálise - Terapia Centrada no Cliente - Abordagem Centrada na Pessoa - Modelo Socio-antropológico

 

Keywords: Anthropoanalysis - Client Centered Therapy - Person Centered Approach - Socioanthropologic System

 

A 15 de Outubro de 1982 ocorre uma triste efeméride: morre em Lisboa o Professor Doutor Carlos Caldeira na sequência de um acidente pós operatório. Morrera como vivera, em congruência com a sua filosofia de vida. Recusara ser operado no estrangeiro, como eu lhe havia sugerido e decidira-se por um hospital público “como a generalidade dos cidadãos” sujeitando-se ao risco (neste caso fatal) inerente a esta decisão.

       Carlos Caldeira é, sem dúvida, a personagem fundamental do movimento rogeriano, em Portugal, pois foi o principal introdutor do modelo teórico e da filosofia que lhe estão subjacentes, na área da saúde e mesmo da educação.    

                Em 1967, pela primeira vez, o pensamento de Rogers começa a ser difundido em Portugal graças ao contacto de uns psiquiatras portugueses com alguns trabalhos franceses sobre Carl Rogers, nomeadamente “A Orientação Não-Directiva” de Pagès e um dos artigos publicados na Enciclopédia Médico-Cirúrgica, bem como os trabalhos do próprio Carl Rogers. Entre os que naquela altura, “conhecem” Rogers, é necessário sublinhar Carlos Caldeira, assistente de Psiquiatria na Faculdade de Medicina, o casal Campos Morais, ambos psiquiatras e Joaquim Lalande, também assistente de reconhecido mérito.

 

(…)

 

Jung, Rogers e Caldeira: heterodoxias ou a importância de se chamar Carlos

 

   Pedro Caldeira        Celeste Duque

 

Os diferentes modelos ou abordagens psicoterapêuticas não surgiram na sequência da pesquisa experimental. A sua eficácia nem sempre chegou a ser comprovada de forma científica, rigorosa em ambientes académicos, até porque é extremamente difícil chegar-se a tal nível de reconhecimento. As psicoterapias são muito mais o resultado da observação clínica espontânea, intuição, sabedoria, bom senso e descoberta ocasional. E a sua aplicação foi sendo consolidada através da prática clínica.

A ruptura com modelos sobre o Homem e práticas terapêuticas convencionais parece ser um dos pontos em comum entre Carl Jung, Carl Rogers e Carlos Caldeira, que desenvolveram abordagens psicoterapêuticas inovadoras nos respectivos tempos e contextos. Essas inovações heterodoxas foram primariamente fruto da inadequação dos modelos tradicionais em voga em cada uma das épocas às práticas clínicas destes três autores.

Em primeiro lugar, Jung rompe com a ortodoxia freudiana, introduzindo, por exemplo, o conceito de interdependência dinâmica constante entre consciente e inconsciente.

Em segundo lugar, Rogers rompe com as práticas terapêuticas analíticas, introduzindo o auto-crescimento como factor terapêutico fundamental na relação de ajuda.

Por fim e em terceiro lugar, Caldeira rompe com os modelos de teoria e prática fechados em si mesmos, introduzindo o ecletismo necessário para uma maior compreensão do Homem.

 

(…)

 

 

 Uma Viagem Com Carlos Caldeira

 Luciano Marmelada

 

“Para um cientista é epistológicamente difícil falar em termos de valorização universal - perde a perspectiva de que todo o saber é um modo de olhar, um modelo, um mapa, não a realidade – seja esta o que for. Não aprendeu ainda pela crítica epistemológica, pela crítica social e pala experiência profissional e da vida, que ao dizer “é impossivel que...”, está de facto a dizer que “ aplicando o meu modelo teórico, prático e técnico é impossivel que...”

Reconhecida esta limitação surge o diferente e, paradoxalmente, a possibilidade de diálogos”

 

                                                                                                                                                Carlos Caldeira

 

1. O autocarro fretado pela Associação Comunitária de Saúde Mental* para a sua excursão anual serpenteia pelos pomares da Lourinhã, rumo a Peniche.

Entre os excursionistas ainda há quem dormite. Distraído, espraio o olhar pelos campos na esperança de vislumbrar a silhueta de um dos famosos dinossauros que povoaram a região. Em “off”, o Afonso disserta sobre a riqueza nacional chamada Pêra Rocha e sobre os vestigios paleontológicos dos simpáticos bicharocos.

Maquinalmente, empunho o telemóvel e diponho-me a ouvir o correio. Entre recados anódinos, surpreende-me a voz da Odete convidando-me para colaborar no próximo número desta revista, com um artigo sobre o Professor Doutor Carlos Caldeira.

Entre a surpresa e a responsabilidade já sentida pelo convite, olho em volta. Entre outros, no núcleo “histórico” lá estão o Florindo e o pai, dos “tempos” da Boavista,  o Zé Maria e a família, dos “tempos” da Comunidade Terapeutica do Sector A do Hospital Júlio de Matos. E também estão presentes médicos, enfermeiros, psicólogos, animadores dos “tempos” do referido Hospital, do Instituto de Ciências Biomédicas do Campo de Santana e doutras “guerras”.

 (…)

 

  

Lembrando Carlos Caldeira

 

  Leopoldo Campos Morais

 

Pede-me o meu amigo e colega Dr. João Hipólito que escreva  algumas palavras para a revista A Pessoa Como Centro, destinadas a um número evocativo do Professor Doutor Carlos Caldeira, cujo falecimento ocorreu em 15 de Outubro de 1982.

 

Terei de fazê-lo ao correr da pena, sublinhando apenas alguns dos aspectos que considero mais significativos, de acordo com a minha memória afectiva.

 

O meu conhecimento do Carlos Caldeira remonta, tanto quanto me recordo, ao ano de 1967, através de amigos comuns. No início de 1963, alguns meses após o meu regresso de Goa, onde por força da acção militar desencadeada pela União Indiana, tinha sido feito prisioneiro de guerra, ingressei como médico estagiário no Hospital Júlio de Matos, estabelecimento com forte marca asilar, em progressivo estado de degradação, que integrava a rede de prestação de cuidados psiquiátricos, rede assegurada pelo então Instituto de Assistência Psiquiátrica, que uma Lei de Abril do mesmo ano de 1963, extinguia.

 (…)

 

 

Desafios Do Século XXI Para A

Abordagem Centrada Na Pessoa*

Traduzido pela psicóloga Raquel Wrona

  

  Alberto Segrera

 

Resumo: Para comemorar os sessenta anos da ACP em Dezembro de 2000 o autor traça uma panorâmica da abordagem rogeriana desde a Psicologia Centrada no Cliente, salientando que ainda hoje a ACP se centra no campo da Psicologia Clinica onde nasceu e é menos participante noutros campos que deverão ser olhados com maior atenção e cuidado, empreendendo um estudo multidisciplinar do fenómeno humano.

O autor entende que a ACP deverá fortalecer a sua identidade, aprofundar os conceitos de Couselling e Psicoterapia e derrubar as fronteiras entre as diferentes linhas da Psicoterapia todas elas contendo em gérmen o pensamento original de Rogers.

Propõe ainda o autor, como desafio para o próximo século, uma maior aproximação a outras Escolas de Psicologia, especialmente as da Psicologia Humanista, o aprofundamento dos seus fundamentos filosóficos valorizando a visão optimista e positiva do ser humano, aceitando todos os contributos oriundos das diferentes culturas e abrangendo o seu actual âmbito num esforço para uma visão holística e transdisciplinar do ser humano. Incita a um maior esforço nos âmbitos da formação, das estruturas, da difusão e intercâmbio de trabalhos de investigação, da criação de centros de documentação e de organização de reuniões internacionais no sentido de recuperar e preservar a história da ACP.

 

 

Palavras-chave: Abordagem Centrada na Pessoa - Counselling - Psicoterapia - Holístico - Ser humano.

 

  

Um Caminho Para a Totalidade:

Terapia pela Arte Centrada na Pessoa*

A Path to Wholeness:

Person-Centered Expressive Arts Therapy

Traduzido por Rute Brite

 

 

  Natalie Rogers

 

“Quando a arte e a psicoterapia se unem, o alcance e a profundidade de cada uma podem-se expandir, e quando trabalham em conjunto, ligam-se às continuidades da história da cura da humanidade.”

                                                                                                    Shaun McNiff

                                                                                                    The Arts of Psychotherapy

  

Resumo: A autora liga a criatividade à terapia quando integra as Artes Criativas na sua prática terapêutica. O objectivo é a cura emocional e a resolução de conflitos interiores. Encoraja  os leitores a acrescentarem as Artes Expressivas às suas vidas pessoais e profissionais para melhor se conhecerem e se relacionarem. Define Terapia pela Arte como um processo de descoberta pessoal e aponta as diferenças da Terapia pela arte Humanista relativamente a outros modelos com diferentes objectivos.

Sendo a Psicoterapia uma forma essencialmente verbal de terapia, afirma a autora que existem outras formas de linguagem que mostram ao terapeuta o mundo do cliente como ele o vê.

Palavras-chave: Terapia pela arte - Terapia pela arte Centradas na Pessoa - Auto-exploração pela arte - Criatividade - Conexão criativa 

Abstract: The author joins creativity and therapy when she integrates the creative arts in her therapeutic practice. She encourages the readers to add expressive arts to their personal and professional lives to better know themselves and cultivate deeper relationships. She considers  Expressive Artstherapy as a process of personal discovery and points out the differences between Humanistic Expressive Artstherapy and other models with different aims.

Being Psychotherapy an essentially verbal form of therapy, the author believes in other forms of language that show the therapeutist, the client’s world as he/she views it. Referring his father’s philosophy,

  Keywords: Artstherapy - Person-Centered Expressive Arts - Arts Self-Exploration - Creativity - Creative Conexion

 

 

Personalização e dinâmica relacional

Personnalisation et dynamique relationnelle

Tradução de Rute Brites

  

 Pierre Tap     Nathalie Oubrayrie-Roussel

 

Resumo: Este artigo propõe-se a evocar interesse actual em repensar a concepção rogeriana da pessoa à luz dos trabalhos da psicologia centrados no estudo da dinâmica pessoal e das relações interpessoais.

No quadro da dinâmica terapêutica evocada por Rogers, o acento coloca-se na importância de uma centração sobre si (representação, avaliação, etc), sobre os outros (representação do outro) e sobre a relação entre o outro (individual e colectivo) e o eu.

Um aprofundamento teórico dos principais conceitos que sustêm a prática terapêutica rogeriana, esclarece-nos sobre a importância de fomentar uma relação intersubjectiva fundada na reciprocidade e no respeito pelo outro.

A noção de congruência interna e externa permite dar conta de uma unificação da pessoa, necessária em todo o trabalho terapêutico, assim como em toda a relação interpessoal pedagógica. A intuição visionária e a intuição empática, permitem-nos compreender melhor a atitude do terapêuta na sua prática de interacção, enquanto supõem, respectivamente, um descernimento cognitivo e um descernimento afectivo na abordagem do conhecimento da pessoa. Rogers acentua a importância de relações autênticas entre as pessoas, fundadas na transparência e no calor comunicativo. A dinâmica positiva da interacção repousa igualmente numa confiança incondicional a respeito do outro, numa capacidade de desconfiança a respeito de si e do outro em relação às rigidificações e constrangimentos institucionais.

Quanto à prática da não-directividade citada por Rogers, nós aproximamo-la da permissividade controlada nas práticas educativas assentes num funcionaamento democrático em que a escuta confiante, a compreensão e a aceitação do sujeito numa relação dão-lhe a possibilidade de pensar sobre os seus problemas e adaptar condutas. No entanto, a coesão relacional repousa sobre a liberdade de expressão esobre uma não influência recíproca entre o sujeito e o terapêuta ou educador. Pela sua presença, o terapêuta ou o educador transmite a segurança e define o quadro e os limites da relação ou terapêutica pedagógica.

Nesse quadro, concebemos que o desenvolvimento da pessoa se apoia numa dinâmica das relações interpessoais, relações através das quais a pessoa desenvolve estratégias de personalização que dão conta da sua gestão do sofrimento e da sua adaptação às situações.

 Palavras-chave: pessoa – personalização – socialização – centração em si – centração no outro – centração na relação – distanciamento afectivo – adaptação – temporalidade – positividade incondicional – empatia – congruência – confiança – permissividade – relação democrática – psicoterapia – estratégias – compromisso – intersubjectividade –gestão de si – autenticidade – construção simbólica da pessoa.

 

FREUD, ROGERS... e EU*

 

  Isabel Leal

  Palavras-chave: Freud; Rogers; Psicanálise; Inconsciente; Sexualidade; Transferência.

Keywords: Freud; Rogers; Psychoanalysis; Unconscious; Sexuality; Transference.

 1) Dois dos nomes marcantes da história da Psicologia são, sem dúvida, Freud e Rogers.

Começando, cronologicamente pelo primeiro destes autores: Freud, parece-me importante sublinhar a dificuldade de compreensão que algumas pessoas terão hoje de uma obra longa de um homem que morreu velho e produziu muito, num permanente ajuste de ideias e reconstrução  de conceitos que, começou quase do príncipio e desenvolveu até onde  lhe permitiu não só o engenho e arte, mas também, o estado do conhecimento e da civilização da sua época. Um século depois, muitos de nós continuam a considerar Freud simplesmente genial. E porquê genial? Em 1º lugar, porque ele fez, de facto, a ruptura, do ponto de vista do conhecimento que havia na época, do saber que estava instalado nas ciências humanas, na psiquiatria e na psicologia do seu tempo.

Há, na história da Psicologia , mas também do mundo, um antes e um depois de Freud, pelo que as suas ideias em geral e a Psicanálise em particular podem ser consideradas como uma ruptura epistemológica, dificilmente igualável.

(…)

 Notas de Leitura

 Counseling with Returned Service Men

(Manual de Counselling(

de Carl Rogers e John Wallen

 Este livro surge nos Estados Unidos em finais da Segunda Guerra Mundial, altura em que se estimam entre 10000 e 15000 o número necessário de counsellors para dar assistência aos muitos militares que se debatem com experiências traumáticas de guerra e com dificuldades de readaptação ao país de origem. É, assim, uma obra concebida como manual de formação intensiva de counsellors. Numa linguagem acessível e com um sentido predominantemente prático, procura conter em si todos os aspectos fundamentais do counselling, desde a apresentação detalhada da atitude e dos métodos do counsellor não directivo, ao desenvolvimento e ao crescimento do cliente, passando por contextos específicos de abordagem educativa e vocacional, familiar e conjugal, e do contacto casual.

É uma obra que nos transporta ao ambiente de guerra e do pós‑guerra na América, e simultaneamente, à dinâmica da abordagem centrada na pessoa. Apesar do distanciamento temporal do contexto em que se inscreve, apresenta já, com clareza e precisão, os princípios e os valores do modelo rogeriano, traduzindo‑se numa leitura de sabor histórico, oportuna e de inegável interesse para todos aqueles que desejem conhecer o processo de counselling como experiência permissiva, aceitante e de crescimento pessoal.

                                                                                     Bertina Coias Tomé

 Notícias

 Teve início no passado dia16 de Outubro o 1º Curso de Formação Teórico-Prática em Counselling, da Associação Portuguesa de Pscicoterapia Centrada na Pessoa e Counselling.

Ultrapassando as nossas espectativas, o curso tem agora 22 formandos inscritos, dos quais quatro pretendem apenas frequentar o 1º ciclo da formação.

Integrado na formação irá decorrer em 10-11-12 Dezembro um Workshop de Grupo de Encontro.

É para nós muito grato verificar o entusiasmo e empenho que os formandos têm até agora dedicado à formação.

Para eles os nossos votos que tenham sucesso e satisfação nas suas tarefas de ajuda ao outro. É essa a razão de ser da formação.

                                                                                                    Francisco Moniz Pereira


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